quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Meio Ambiente e Religiosidade: o mito do "paraíso" e a crise ambiental.

Algumas religiões, especificamente as cristãs, têm como ponto de partida para a sua teologia o Gênesis, que é a narrativa bíblica da criação do mundo. Essa narrativa coloca o homem como sendo parte da criação, porém, sendo responsável por cultivar e guardar o que foi criado por Deus. Nessa lógica, naturalmente, seria esse o grande papel dado por Deus aos seres humanos: compartilhar a vida com a natureza.

“Javé Deus tomou o homem
e o colocou no jardim do Éden,
para que o cultivasse e guardasse”
(Gn 2, 15)

O momento em que estamos situados é marcado pelo avanço das tecnologias, onde a máquina toma cada vez mais espaços e a relação entre as pessoas se torna cada vez mais superficial. Além disso, marcados pelo consumismo exacerbado, aspecto singular do sistema capitalista, as pessoas estão cada vez mais egocêntricas e individualistas.

As religiões nesse contexto adquirem, muitas vezes, um papel meramente de "remédio" para as angústias e frustrações pessoais, raramente assumindo o papel de formadora de seres humanos conscientes. Sendo assim é urgente que as religiões, filhas da idéia ‘criacionista’ do mundo e que se autodenominam representantes de Deus na terra, resgatem esse cuidado, esse papel que nos foi atribuído.

A idéia de vida eterna, de paraíso após a morte que tanto é difundida pelas religiões cristãs, que é assimilada pelos crentes dessas religiões pela necessidade que têm de projetar algo além da vida, poderia fomentar o resgate do paraíso primeiro, aquele do Gênesis, que parecem ter perdido de vista depois de tanto olhar para o desconhecido idealizado na pós-morte. Esse ‘paraíso’ tão sonhado pela cristandade é a própria Terra que hoje clama pela vida. É a terra das desigualdades sociais, do consumismo inconsciente, de tantas guerras e de tantos pré-conceitos.

Não podemos recriar o ‘paraíso’, mas podemos transformar a realidade com a qual nos deparamos atualmente, seja enquanto indivíduos, como coletivos pelo meio ambiente, ou como parte integrante do meio natural. O que não podemos é tentar viver em função do que está para além da nossa realidade atual, desconsiderando que a projeção para além da vida na terra que nos garante maior aprendizado é aquela que se faz para transformar ou garantir a melhor vivência da realidade.

Que a nossa capacidade de idealizar garanta as nossas utopias, mas que não nos faça fechar os olhos para a vida e para a realidade que nos rodeia e envolve.

Por Ediane Soares. Estudante de Filosofia, participa da Juventude Terrazul e atuou durante seis anos na PJMP (Pastoral da Juventude do Meio Popular)

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