quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Mais agronegócio e menos serviços ambientais


O Seminário faz parte dos três realizados por ano pelo FADOC, de acordo com as necessidades apontadas pelas 14 Organizações Comunitárias de Base (OCBs) ligadas ao projeto.


As consequências do desequilíbrio ambiental no semi-árido, os impactos ambientais nos meio urbano e rural e a agricultura camponesa foram os principais temas discutidos durante o Seminário “Impactos ambientais no urbano e rural” realizado pelo Fundo de Apoio para a Dinamização das Organizações Comunitárias de Base (FADOC), nos dias 13, 14 e 15 de agosto, em Fortaleza, no Hotel Meridional.Surgido no início dos anos 80 com o objetivo de apoiar as comunidades que lutam por uma vida digna, o FADOC tem projetos em 13 países e aposta na capacidade de organização popular para o trabalho. O Fundo de apoio atua, especialmente, para fortalecer a autonomia das famílias. “A autonomia dos grupos é o ponto mais positivo. É muito bom vermos os trabalhadores se organizando para terem dignidade e um dinheirinho extra no final do mês”, explica Jacinta Aguiar, coordenadora do FADOC no Brasil.


O Seminário faz parte dos três realizados por ano pelo FADOC, de acordo com as necessidades apontadas pelas 14 Organizações Comunitárias de Base (OCBs) ligadas ao projeto. Jacinta Aguiar conta que todas as orientações dadas às comunidades focam-se na produção sustentável. “Somos radicalmente contra agrotóxicos, trabalhamos com produções totalmente orgânicas”. Ela conta que dentro das comunidades são realizadas atividades de formação para orientar os agricultores em relação ao desmatamento, queimadas, poluição de rios.Na busca de autonomia, as comunidades esbarram no agronegócio, que é responsável por 33% do Produto Interno Bruto (PIB) e 42% das exportações totais. No Brasil, são 388 milhões de hectares de terras agricultáveis férteis e de alta produtividade, dos quais 90 milhões ainda não foram explorados, de acordo com dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.Para a médica Raquel Rigotto, palestrante do Seminário do FADOC, e especialista em riscos tecnológicos e ambientais associados à industrialização em região semi-árida do Brasil, não só o Brasil, mas toda a América Latina coloca sua natureza a serviço do agronegócio. São diversos produtos, segundo a médica, os explorados: camarão, frutas, soja, etanol, polpa de celulose, etc. “O Estado brasileiro injeta sangue na veia do agronegócio com dinheiro público”, denuncia ela.


A médica apontou várias conseqüências para o crescimento desenfreado do agronegócio. A professora garante que a monocultura promove a necessidade, cada vez maior, de uso de venenos extremamente maléficos aos humanos e à natureza. Devido às necessidades específicas da atividade, os camponeses, segundo ela, abandonam as práticas tradicionais de cultivo da terra, gerando a fragilização da identidade cultural, modificando o vínculo do trabalhador com a região e promovendo expansão da fronteira agrícola.A professora observa ainda que a super exploração da força de trabalho aumenta a vulnerabilidade das comunidades e da natureza, levando à forte degradação ambiental. “A natureza nos oferece diariamente diversos serviços ambientais, nos oferece água, alimentos, remédios, regula a qualidade do ar, das águas, do clima, mas diante da situação atual, ela não está em condições de oferecer mais nada”, explica a palestrante.


Carcinicultura

Entre as atividades mais degradantes citadas pela médica, estava a carcinicultura. A atividade, de acordo com um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA-Brasil), causou impactos diretos ao ecossistema manguezal em 84,1% das fazendas licenciadas pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) e promoveu desmatamento do carnaubal em 25,3% das propriedades destinadas para tal fim.
De acordo com um relatório do deputado federal João Alfredo para a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara Federal, os viveiros de camarão promovem, entre outros danos, desmatamento do manguezal, da mata ciliar e do carnaubal; bloqueio do fluxo das marés; contaminação da água por efluentes dos viveiros; redução e extinção de habitats de numerosas espécies; expulsão de marisqueiras, pescadores e catadores de caranguejo de suas áreas de trabalho e exclusão das comunidades tradicionais no planejamento participativo.“Isso é progresso, isso é desenvolvimento?”, perguntou-se a professora Raquel Rigotto durante o seminário. Ainda sobre injustiças, Raquel denunciou que a poluição não é democrática. “O acesso aos recursos naturais é desigual, a distribuição dos benefícios do desenvolvimento também. Os maiores danos vão para os trabalhadores, para grupos sociais específicos como as comunidades quilombolas e indígenas”.


MST

Parceiro do FADOC na realização do seminário e nas ações, o MST também esteve presente no seminário. Jeová Sampaio, integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, afirmou que uma das bandeiras da Reforma Agrária defendida pelo MST é o manejo sustentável da terra.Jeová explicou que nos assentamentos do movimento acontecem formações para conscientizar os agricultores que devem fazer um bom uso da terra. “É difícil falar para um agricultor tradicional não fazer queimada, mas nós tentamos. É importante ter a consciência de preservar a terra que vamos deixar para nossos filhos para que eles também possam tirar dela sua sobrevivência, mas sempre com responsabilidade”.


Juventude Terra Azul

Em parceria com o MST, o FADOC e a Marcha Mundial de Mulheres, o projeto Juventude Terrazul realiza, desde o ano passado, seminários e encontros de formação sobre meio ambiente para 60 jovens de diferentes entidades de Fortaleza. Com o tema “Mudanças Climáticas e Juventude”, os jovens realizam encontros de ação. Produzem vídeos e realizam caminhadas. “Queremos lembrar a temática ambiental ao governo. Vivemos em uma sociedade que não discute o tema ambiental. O planeta está sofrendo e ninguém quer ver”, alerta Fernanda Rodrigues, integrante da diretoria da Juventude Terrazul.
Toda a programação do movimento está no site http://www.juventudeterrazul.blogspot.com/


Ocb´s do Programa FADOC brasil:- Assentamento Palmares (Crateús)- Assentamento Nova Canudos (Umirim)- Assentamento Zé Lourenço (Chorozinho)- Rede Xique-Xique (Mossoró RN)- EVA (escola de vivência agroecológica) Associação Santo Antônio (Santana do Acaraú)- Juventude Terra Azul (Fortaleza)- Jovens de Caridade (Caridade)- Associação dos Pequenos produtores da Região do Jardim (Maranguape)- Centro Patativa do Assaré (Natal)- Associação de Mulheres Dendêsol (Fortaleza)- Instituto de Jovens Rurais de Quixeramobim (Quixeramobim)- Associação Comunitária de Marisqueiras e Pescadores Curral Velho (Acaraú)- Associação de radiodifusão comunitária do alto alegre (Bahia)- FIJ (Federação Ibura Jordão) Recife


Fonte: Da redação do Estado Verde

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